CONTO FANTÁSTICO - "Sertão"
O chão de terra batida era frio e arenoso. Já estava acostumado, porém. Toda manhã acordava cedo para colher os sabugos que haviam brotado, arar o solo próspero e ordenhar o que possível. A rotina passava sem ser notada, não era mais um fardo naquela vida.
Logo em seguida, como de praxe, saia com seu cão para pegar água do açude vizinho. A caminhada não era tão simples. O solo, a meses atrás fundo de um riacho, estava pedregoso, rachado de tão seco, e feria seus pés ao ponto de ter que parar para descansá-los. Aquele sol forte castigava o sertanejo impiedosamente. Outubro era assim: árido, ocre, sem-vida.
Chegando ao açude, a tarefa foi simples naquele dia; havia muita lama e pouca água. Sacou seu tonel, encheu até a metade e já ia fazer o caminho de volta quando notou um movimento no meio do açude . Sem hesitar, puxou um barbante com um arame na ponta, enfiou um pedaço de gordura na parte mais afiada e jogou na água turva com a esperança de pegar algo.
Vinte minutos se passaram, e as expectativas esvaiam-se aos poucos. Não era uma miragem. Ele realmente havia avistado um debato nas águas daquele barreiro.
À medida que o tempo passava, seu estômago reclamava e a vontade de voltar para casa conflitava com a de ter algo consistente para matar a fome. Já ia desistir quando uma fisgada brusca arrebatou sua atenção. Alguma coisa grande puxava a isca com toda força.
O sertanejo, empenhado e maravilhado ao mesmo tempo, puxava a linha com todo o vigor que possuía. Repentinamente, um peixe enorme saltou da água e arrastou o homem para mais perto da beira. Tinha escamas coradas, e grandes bigodes semelhantes aos de um bagre. Era quase do tamanho do pescador e continuava a puxar cada vez mais forte o barbante, que resistia incrivelmente ao embate que estava sendo travado naquele momento. O cão, afastado, latia compulsivamente.
Com a lama e a água batendo nos joelhos, amarrou a linha na cintura e começou a se arrastar aos poucos para traz. A criatura deu mais um salto e continuou se debatendo na superfície da água. Suas escamas brilhavam ao sol sertanejo um vermelho aceso.
Com um último esforço, o homem puxou o barbante com força que lhe restava e então, a linha se rompeu.
Cansado, procurou algum vestígio restante do peixe. A água ainda estava remexida, mas nenhum sinal da criatura. O cão ainda latia para o açude.
Decepcionado e com fome, juntou suas coisas, calçou as sandálias e tomou o caminho de volta para seu casebre. O sol ainda rachava a cara do pobre homem, mas pelo menos havia água. Um cantil cheio para matar a sede.